“Não se separa vida e arte”, afirma Nívia Uchôa em entrevista para o Miolo Cultural
- Postado em 24 de fevereiro de 2026
Nesta segunda-feira (23/02), o Miolo Cultural, projeto desenvolvido na disciplina de Radiojornalismo II do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Cariri (UFCA), deu continuidade à sua série de entrevistas. No terceiro dia de gravações, o programa recebeu a fotógrafa e cineasta Nívia Uchôa, que compartilhou memórias da infância, reflexões sobre arte e política e os desafios de produzir audiovisual no Cariri.
Entre Aracati e Juazeiro do Norte, Nívia construiu as bases de uma trajetória marcada pela sensibilidade e pela resistência. Chegou a Juazeiro aos três anos e cresceu ao lado de sete irmãos. Brincava nos depósitos, nos quintais, nos parques de diversão improvisados e até encenava pequenas travessuras, como “enganar romeiros”.
A fotografia surgiu por influência dos irmãos. O cinema, quase ao mesmo tempo. Mas a escolha profissional não foi simples. O pai resistiu à ideia de vê-la fotógrafa, segundo ela, ele queria protegê-la do machismo e sonhava com uma profissão mais tradicional para a filha. Nívia relembra que, no início da carreira, ouviu muitas vezes que, por ser mulher, não teria a mesma capacidade que os homens nas produções fotográficas. Ainda assim, persistiu, e em 1993, decidiu que viveria de fotografia.
Uma de suas imagens mais marcantes, como diz, é a fotografia em preto e branco de uma criança no Rio Banabuiú, em que, no reflexo da água, surgiram asas que remetiam a um anjo, um acaso poético que reforça sua definição de que “fotografia é puro sentimento”.
No audiovisual, Nívia transita entre o documental e o experimental. Dirigiu obras como Travesthriller, Quero Viver Igual a um Beija-flor, Água Para Que Te Quero e Verbo Ser. Este último e mais recente, foi pensado inicialmente como série, mas foi transformado em longa-metragem, nascendo da escuta de múltiplas vivências femininas. “Por mais que sejam mulheres diferentes, elas se conectam e vivem”, destacou.
Para Nívia, não há separação entre vida e arte. Assumidamente lésbica desde a cedo, afirma que sua identidade atravessa suas escolhas estéticas e políticas. “Fazer arte é um ato político”, diz, ao defender que o cinema e a fotografia devem abrir espaço e dar voz a quem historicamente não teve visibilidade. Ao mesmo tempo, reconhece as dificuldades de produzir fora dos grandes centros: “Você não sobrevive de trabalhos autorais aqui no Cariri”. Entre os principais obstáculos, aponta a falta de equipamentos e o alto custo da produção audiovisual.
Durante a entrevista, a cineasta também comentou a crescente valorização do cinema nacional e demonstrou otimismo em relação à consolidação do curso de Cinema na região. Para ela, o Cariri é um território emblemático, potente em personagens e narrativas, que ainda precisa de mais espaços de formação e incentivo. “Não ter medo e se dedicar” foi o conselho deixado aos que desejam ingressar na área.
Ao longo da noite, ficou evidente que a trajetória de Nívia Uchôa é atravessada por coragem, afeto e compromisso social. Entre memórias de infância, enfrentamentos ao machismo e a defesa de uma arte engajada, a fotógrafa reafirmou sua crença na imagem como instrumento de transformação, seja no clique de uma câmera, seja na montagem de um filme.
A quarta e última entrevista do projeto ocorrerá no dia 02/03, e o entrevistado será o dono do Sebo Solares, Manoel Barros.
Texto: Guilherme Vitorino
Fotos: Vitor Mariano e Raissa Eufrasio




